A Caça e o Caçador – Contos da Taverna

A Caça e o Caçador é um conto de Gustavo Lourençon.

“Os olhos me condenaram ao trabalho forçado. 

A cor da minha pele inocentou o filho do fidalgo. 

(…) 

Na roleta dos deuses eu nasci pronto para o abate. ” 

Muro Pichado – autor desconhecido

Condado de Artúria 

A luta até o último resquício de força ficou imortalizada na expressão da cabeça do lobo que Jangô acabara de retirar de dentro de um saco de estopa. 

– O filho da puta deu trabalho, mas agora é apenas mais um número – o caçador arremessou o membro decepado no meio da roda de sua equipe de mercenários. – Vá se juntar aos outros! 

Os homens urraram, dedicando honras ao maior caçador com quem eles já tiveram o prazer de trabalhar. 

– Esse desgraçado era o maior da matilha – o olhar de Jangô atingiu o horizonte da floresta nevada. – Dar cabo do restante é uma questão de tempo. 

– Ei chefe, qual o valor que o Conde prometeu pagar para nos livramos dos lobos? – cada palavra dita pelo capanga era acompanhada por um jato de cuspe que emporcalhava ainda mais a sua barba. 

– Só pela cabeça deste bicho ele nos dará três moedas de ouro. Somado ao conjunto da obra que faremos por aqui, exigirei no mínimo cinco vezes mais! 

– Isso se ele aparecer né? Desde que chegamos aqui o desgraçado não deu as caras para nos recepcionar. 

– O Conde tem suas peculiaridades – o caçador riu com desdém. – Fique tranquilo, meu bom homem, pois Elrick von Litz honra seus compromissos. Enquanto ele não aparece, vamos usufruindo da hospitalidade de seu Condado. 

Jangô jogou o saco de estopa para um de seus subordinados, que imediatamente o utilizou para guardar a cabeça do lobo branco, levando-a em seguida para uma charrete estacionada ao lado da taverna. Um cheiro forte exalava de dentro do veículo, demonstrando que aquele não era o único troféu conquistado naquela noite. 

– Que frio do cacete! Vamos entrando logo, que a rodada de hidromel é por conta do Conde! 

O bando adentrou na taverna, recebendo de imediato dos atendentes canecas cheias de combustíveis para a manutenção daquela noite. 

O local era conhecido não apenas pela bebida, mas também por servir de ponto para jovens em busca de oportunidade de lucro rápido. 

O ritual já era conhecido: logo após os serventes deixarem as primeiras bebidas, as garotas e garotos desfilavam em frente às mesas, insinuando-se na busca de clientes que não se preocupavam em gastar algumas moedas na busca por um momento de prazer. 

O grupo era miscigenado: desde homens e mulheres das mais variadas etnias que atiçavam a curiosidade de quem apreciava uma noite de surpresas. Em uma questão de tempo, as mais belas e belos jovens já possuíam alguém para passar a noite. 

Jangô, por sua vez, recusou o convite dos primeiros jovens que se insinuaram. Como todo bom caçador, já escolhera a sua caça: a única que não se moveu, mas que lhe fixou o olhar desde que adentrou no local. 

A jovem de pele morena e corpo esguio passou em frente à mesa de Jangô quando este terminava a terceira caneca de hidromel, desacelerando o passo para ser propositalmente interrompida pelo líder dos mercenários. 

– Como o Grande Ilaoh pode deixar sua mais bela filha andar livremente nesta terra profana? – Jangô segurou o braço da jovem, fitando-a com o mesmo brilho nos olhos de quando caçava. 

– Sinto-me lisonjeada pelo elogio – em um movimento, os olhos rasgados da jovem encontram os do caçador. – Por aqui são poucos os que valorizam o diferente. 

– São todos uns idiotas castrados – o caçador acariciou os cabelos platinados da jovem. – Mas deixe esses putos arturianos de lado. Eles não sabem apreciar o que é bom. 

– Aproveite a bebida, meu caçador. Estarei aqui quando precisar de mim. 

Com um sorriso insinuante, a wanin dirigiu-se ao balcão da taverna, conversando alegremente com outros dois jovens que estavam no local. 

– Helmer – Jangô chamou a atenção do taverneiro que servia pessoalmente o hidromel ao caçador. – O que você pode me dizer daquela wanin? 

– Uma toburiana apareceu por aqui hoje com esses jovens e me entregou uma carta de serviços assinada pelo Conde. Sobre aquela garota em específico, você já terá a resposta – o taverneiro fez um sinal para uma mulher que, em uma mesa do fundo da taverna, observava toda a movimentação do local. – Naomi, o “patrão” quer saber um pouco mais de uma de suas meninas. 

A mulher, cujos olhos rasgados denunciavam a sua miscigenação, dirigiu-se com um simpático sorriso para a mesa de Jangô. 

– Pois não, meu senhor, percebo que a Liv se mostrou ser do seu feitio. 

– Uma mestiça? – o caçador não fez questão de esconder o desprezo ao proferir a palavra “mestiça”. – Que surpresa me deparar com um grupo destes longe da península. – Qual o valor pela noite com a sua garota? 

– A diversão de todos aqui já está paga. Cortesia do Conde pelos serviços prestados, nobre caçador. 

– Nada mais justo! A conquista do melhor troféu pelos serviços prestados – o taverneiro riu concordando com as palavras de Jangô. – Um salve ao Conde Elrick! 

– Viva o Conde! – Os mercenários responderam ao grito do caçador, brindando suas canecas de hidromel. 

(…) 

Liv escolhera o quarto mais afastado ao fundo da taverna, sendo seguida por Jangô que, passos atrás, alternava o olhar entre as curvas de sua acompanhante e o punhal preso em uma tira de fivela em sua cintura. 

Assim que abriu a porta do cômodo, a jovem foi violentamente empurrada pelo caçador, que se aproveitou de sua força para encurralá-la contra a parede do quarto. 

Com uma agilidade típica que alçou a sua fama de caçador, retirou a arma que Liv trazia. Em uma questão de segundos, a lâmina estava rente ao pescoço da wanin. 

– Sua vadia, você não é boba. Já deve ter percebido que sou uma pessoa bem vivida, então não tente fazer qualquer tipo de graça. O destino de quem entra no meu caminho é o mesmo dos animais que caço. 

– Eu sou apenas uma estrangeira querendo ganhar o meu ganha pão, meu caçador – mesmo com a proximidade da lâmina do punhal, Liv começou a beijar o pescoço de Jangô. – Estou aqui apenas para servir. 

A boca da jovem subia em um ritmo orquestrado o colo do homem. O calor do contato corporal, misturado ao perfume sedutor utilizado por Liv, fizeram com que Jangô afrouxasse, aos poucos, a empunhadura da lâmina que segurava. 

A mão da wanin alcançou a nuca do caçador sem que ele se importasse. Foi o movimento que bastou para que o punhal caísse no chão e o líder dos mercenários abraçasse com força o corpo da jovem, tentando retirar, a qualquer custo, o seu vestido. 

Em um movimento rápido que foi ignorado pelo caçador, Liv trocou de posição, encurralando o homem na parede, voltando a beijar o seu pescoço. A caça havia virado caçadora, e a presa estava totalmente em suas mãos. 

O mercenário fechou os olhos, deixando-se levar pelo momento, deleitando-se com as unhas da garota arranhando com força a sua nuca, bem como com as mordidas cada vez mais fortes em seu pescoço. 

– Vejo que não preciso pedir por algo a mais – o corpo de Jangô estava em ebulição. – Você vale cada moeda gasta pelo Conde. 

Liv deu uma risada abafada, mordendo com uma força esmagadora o pescoço de Jangô. O caçador, espantado, abriu os olhos que denunciavam a dor dilacerante sentida. 

O sangue jorrava do pescoço do mercenário, que incrédulo observava a wanin se afastando com um sorriso banhado em sangue. 

– Maldita… – o sangue jorrava com força do corpo de Jangô, cuja capacidade de raciocínio rapidamente se esvaia. Com o reflexo prejudicado, falhou miseravelmente na tentativa de pegar o facão que estava dentro de seu casaco, vindo a postar-se de joelhos ao dar um passo em falso. 

– Cadela do inferno… a morte será o menor dos seus problemas! 

– “Cadela” não é um termo que me ofende – Liv cuspiu o pedaço de carne que arrancara do pescoço de Jangô. – Pelo contrário, me dignifica, engrandece! 

Patas pretras como a noite começaram a surgir onde antes havia mãos e pernas, enquanto uma pelagem escura começou a cobrir o corpo da jovem, rasgando as suas roupas. Com a vista turva o caçador observava, atônito, a transformação da wanin em uma grande loba. 

– Sua… sua…. brux… 

– Acho que o termo que você estaria procurando seria “druida”. 

Naomi adentrou calmamente no quarto, desviando um olhar tênue para a loba que se postava ao seu lado. 

– Rituais pagãos… – as palavras do caçador saíam cada vez mais embargadas pelo sangue que subia pela sua garganta. – As famosas lendas de feitiçaria profanas dos Grandes Picos. Eu jamais esperaria que estrangeiros seriam capazes de fazerem o rito demoníaco. 

– O desconhecido se torna profano e herege na boca dos ignorantes. Não deveria me surpreender. Infelizmente não será você que repassará a informação para frente – Naomi se ajoelhou na frente de Jangô, segurando o queixo do mercenário com as pontas dos dedos. – Cada ação gera uma reação, e para cada lobo morto de forma covarde haverá um caçador a menos. 

– Assassinos de crianças… 

– Pessoas como você moldam a verdade pela conveniência – a mulher sentia a respiração ofegante do caçador. – As mesmas moedas de ouro que absolvem o pagador, condenam quem não tem como se defender. 

– Vai se fu… 

Com uma simples virada de mão, Naomi girou o queixo de Jangô, quebrando-lhe o pescoço. O mercenário tombou, já sem vida, sob a poça de sangue jorrada pelo próprio corpo. 

A mulher se aproximou da loba negra, abaixando-se até a altura do animal, que observava pacientemente a cena ocorrida. 

– Minha querida irmã, temos muito o que fazer ainda. 

Naomi se transmutou em uma loba de pelagem bege, puxando um uivo que foi imediatamente acompanhado pela sua companheira. Em um curto espaço de tempo, os demais lobos espalhados pela estalagem atenderam ao chamado, em uma sinfonia que pode ser ouvida por todo o Condado. 

O taverneiro, espantado, saiu da taberna e se dirigiu rapidamente até a estalagem que ficava nos fundos do estabelecimento. Ao adentrar no corredor dos quartos, seu estômago embrulhou com o cheiro forte, estacando-se em pânico ao observar diversos lobos saindo dos cômodos, espalhando rastros de sangue e pedaços de carne humana pelo chão. 

(…) 

Naquele mesmo dia, um pouco antes 

Benjamin sequer ousava respirar enquanto era encarado pelo lobo. Desviou o olhar apenas para perceber que o cocheiro jazia ao lado da carruagem, enquanto os dois guardas da escolta, aos prantos, tentavam estancar o sangue que vertiam dos ferimentos em suas pernas e braços, incapazes de alcançarem as armas que estavam espalhadas pelo chão. 

Com olhar penetrante e hipnotizador, o lobo de pelagem acinzentada encarava fixamente o tabelião, em cujos braços se prendia uma maleta de couro. 

– Por favor… – Benjamin apelou para o impossível, pedindo clemência para a fera. – Eu tenho família… 

O animal se aproximou mais um pouco do homem, que instintivamente se valeu da única arma que possuía. De olhos fechados, arremessou a maleta, que passou assoviando ao lado do lobo, vindo a aterrissar com força na neve fofa. 

Os segundos que se sucederam pareceram uma eternidade. Percebendo que o animal não investira em ataque, o tabelião abriu aos poucos os olhos, a tempo de ver o lobo se afastar, com a maleta presa em sua bocarra, embrenhando-se floresta adentro. 

Com dificuldade para firmar os passos, Benjamin se aproximou de um dos cavalos que conduzia o veículo atacado. 

– Vamos, Benjamin. Vai ser fácil explicar o que aconteceu. É claro que o Conde acreditará na história e você não será enforcado pelo roubo de selos oficiais. – o tabelião lamentava em voz baixa enquanto retirava, com as mãos trêmulas, os arreios que prendiam o animal à carruagem. 


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