Amy – Contos Macabros

Por Wal Killer

– Vida que segue. É assim que todos me dizem e é assim que tem que ser!
Sentindo-se quebrada por dentro, todos os dias se vestia de um sorriso no rosto, organizava suas coisas e, mesmo cansada se colocava em pé.

Realizava essa rotina há aproximadamente um ano e meio, data que decidiu mudar de emprego, de amigos e se distanciar de sua família.

A escolha na época parecia certa: voltar para um lugar que lhe fez tão bem quando criança. Não entendia por que no passado seus pais decidiram partir.

A caminho de seus afazeres, realizava constantemente os mesmos passos. Saia da casa antiga cheia de árvores, pequena e aconchegante. Passava por um parque onde crianças brincavam com suas mães desatentas. Pouco à frente do parque passava pelo hospital local, onde por vezes presenciou histórias alegres. Outras vezes tristesSe encantava ao lembrar do bosque que ficava tão perto e do cemitério local, no qual às vezes ia para se livrar das vozes e murmúrios das pessoas.

Nesse local incomum até fizera um amigo. Seu amigo estranho, franzino e simpático, por vezes até o ajudou a se livrar das flores mortas abandonadas nos túmulos.

Aproveitava as horas para ficar um pouco com o túmulo de seus familiares. Um jazigo antigo, majestoso, bem cuidado, mas com uma frase gravada que para ela não fazia sentido. Por que manter essas palavras e não ajustar a ortografia errada que foi gravada em uma delas?

Saía de casa pela manhã, voltava tarde, se alimentava mal e sempre se sentia cansada. Fez várias terapias cada hora com um diagnóstico diferente e medicamentos diferentes para tomar. Medicamentos esses que não faziam efeito algum.

Após retornar para casa num dia comum e solitário, ao organizar alguns armários encontrou uma foto de sua avó. Ah, a sua avó. Sempre jovem, morrera com problemas cardíacos, mas sem um fio de cabelo branco. A verdade é que as mulheres de sua família sempre aparentavam estar muito bem, com cabelos e olhos escuros e pele bem clara, nunca pareciam
ter a idade real. Não eram belas, não eram feias. Chamavam a atenção por sua estranheza peculiar.

Sua família no geral tinha estranhos acontecimentos. Isso é fato. Suicídios mal explicados, prisões, pessoas declaradas insanas. Mas não conhecia nenhuma dessas pessoas, então eram só histórias de família que nem sabia se realmente eram verídicas.

Ao vasculhar as coisas encontrou um pacote de papel já amarelado e tintas antigas. Tentou abrir para ver quais cores ainda possuía. Como sempre desastrada, acabou cortando o dedo em uma das tampas. O sangue escorreu justo na tinta vermelha que tanto gostava. De qualquer forma, ainda daria para aproveitar. Resolveu voltar aos seus desenhos que havia abandonado, afinal essa sim era uma terapia que lhe acalmava.

No fim de semana próximo, começou então os seus rabiscos. Não ia arriscar logo de cara, então decidiu ir até a praça e desenhar uma arvore anciã que reinava lá.

Com tons de preto, cinza e vermelho, terminou sua primeira tela. As horas passaram e nem percebeu. Parecia renovada. Uma fonte de energia foi restaurada. Pareceu feliz por alguns momentos.

Passaram os dias e continuou nas suas investidas de tinta. Sempre que tinha tempo se lançava no mundo da pintura. No segundo dia retratou um casal de idosos. O marido sofria de cânce terminal e o amor e a ternura entre os dois era inspiradora. No terceiro dia retratou as crianças no parque. O dia das mães estava próximo e se sentiu nostálgica.

Teve lembranças da infância frágil, onde sempre passava mal por motivos não explicados. A mãe não se importava. O pai achava aquilo tudo muito estranho. No final do dia acabava no hospital, com os braços furados, uma caixa de lápis de cor e várias folhas coloridas para desenhar.

Sua casa aos poucos ia acumulando retratos, quadros e esboços. Cada vez mais feliz e renovada, não percebia mais as angústias de antes ou a tristeza do passado. Não acompanhava as notícias da TV, não queria saber de nada de ruim em sua casa ou em suamente.

Em uma das tardes de folga, sua amiga veio lhe visitar de surpresa. Se surpreendeu com todos quadros e, sem pensar duas vezes organizou uma exposição.

Tudo certo! No sábado, em um evento da cidade, teria um local só seu para poder apresentar para o mundo sua forma de pensar através das cores, riscos e traços.

Nesse tempo, nessa nova antiga cidade, fez também uma amiga. Uma única amiga que, ao contrário dela, era uma pessoa alegre, colorida e extravagante. E por que não a desenhar também?

No dia marcado, com tudo organizado e com um orgulho dentro de si, seguiu para o tal coquetel no qual sua obra seria exposta.

Ao chegar lá, se surpreendeu com os olhos marejados dos que ali se encontravam. E com os agradecimentos, por ter retratado essas pessoas que haviam falecido tão repentinamente.

Ficou confusa e atordoada, mas resolveu de forma discreta, pesquisar sobre o que eles contavam.

A manchete do site da cidade reportou que há alguns dias, o senhor que desenhara finalmente faleceu após lutar por vários meses contra o câncer. Curiosamente sua esposa teve um infarto fulminante e faleceu no mesmo dia.

As crianças que costumava ver também foram a óbito, após contrair uma variação da toxoplasmose existente, que foi muito mais agressiva e que não conseguiram controlar.

Até a arvore que desenhou foi vítima de uma praga que não existia mais na cidade há cerca de 27 anos.

Incomodada e apreensiva, só gostaria que a amiga chegasse para poder cumprimentá-la e sair dali. Mas a amiga não chegou. Sofreu um acidente no caminho e não resistiu aos ferimentos.

Angustiada, partiu em direção ao cemitério, seu único lugar de paz interior. Entrou por um caminho que só ela conhecia e rumou em direção a lápide de sua família.

Sentada em frente a esse túmulo tão reconfortante e aos prantos, não entendia o que estava acontecendo. Era muita coincidência tudo isso. Não era possível que sua mente voltasse a lhe atormentar.

Passou horas ali e, aos poucos se acalmou. Mas estava muito cansada para ir embora.

Prestando atenção aos detalhes, enquanto o sono lhe abraçava, murmurou suas últimas palavras em voz baixa antes de adormecer:

Aqui eu sucubo.

E viverei em você enquanto me permitir adentrar.

Família Aesma Daeva

*Essa é uma obra de ficção. Qualquer semelhança de nomes, pessoas, fatos, lugares ou situação da vida real, é mera coincidência.

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