Origins: Snowball

Foto de um hamster de crochê branco segurando uma rosquinha cor de rosa. No fundo uma estante com muitos livros desfocada.

Acho que isso é o que os humanos chamam de diário. Vou escrever bem grande aqui no começo: DIÁRIO DO SNOWBALL! Só pra ficar bem claro mesmo.

Bom, eu não sou humano. Digo, eu acho que não sou.

Teoricamente tenho tudo que um humano tem mas eu não sou um.  É difícil explicar mas é vou tentar colocar nesse papel. Porque uma vez eu vi um dos cientistas dizendo que o papel aceita tudo então é hora de colocar isso a prova.

Meu nome é Snowball, hilário né? Eu sou peludo, dentes grandes tão brancos quanto o meu pelo, uma calda macia, orelhas pontudas e patas fortes. Eu era o reizinho da minha ninhada, pelo menos era assim que a minha mãe me chamava.

O nome Snowball veio do John, um dos cientistas. Eles estavam pesquisando coisas malucas, tentando cultivar superpoderes em laboratório. Essas merdas que os humanos costumam fazer.

O bicho sempre pegava com os outros e o John aliviava a minha barra, sempre trazia um pedaço de doce pra mim e eu ficava protegido das agulhas. Ele dizia: Snowball bom menino! E me dava um pedacinho de chocolate escondido. Uma vida perfeita.

Até que a coisa azedou, o Murph um dos escrotos do laboratório disse que eu estava muito gordo, que logo seria sacrificado por estar com diabetes. Eu sempre odiei essa Betty sem nem mesmo conhecer a desgraçada.

Os caras  disseram que eu tinha o peso pra testar o composto verde neon. Eu sabia que aquilo era a morte. Todo mundo que era injetado naquilo derretia, virava uma poça de gordura. Era muito feio e os caras faziam isso por diversão. Sempre odiei cientistas sacanas, até mais que a Betty.

Marcaram de me dar a injeção na manhã seguinte, ai o John quis fazer um jantar especial, uma versão maluca da ultima ceia dos condenados sabe? Ele ficou até mais tarde e deu um jeito de pegar o cartão do supervisor pra bolar o plano maluco dele.

Naquela noite o John abriu minha gaiola e me levou pra casa dele. Cara foi o melhor dia da minha vida! Ele tinha feito um pudim inteiro só pra mim. Subi no balcão enquanto ele dormia e me empanturrei com aquela parada.

Quando eu acordei o John me olhava assustado. Acho que eu estava roncando, nunca tive certeza, a parada é que ele me colocou na gaiola e me levou de volta pro Laboratório. Eu estava no paraíso, muito louco com todo aquele açúcar.

Meus olhos estavam virados para dentro e eu nem tremi quando a agulha entrou no meu coraçãozinho injetando aquela merda verde neon.

Então eu convulsionei e os caras começaram a sorrir e gargalhar. Algo dentro da minha cabeça estalou e eu comecei a enxergar os sacanas de um jeito diferente. A agulha saiu do meu peito mas nenhum filete de sangue saiu junto.

A ferida tinha se fechado sozinha e eu estava muito puto cara. Não tinha medo debaixo de todo aquele açúcar. Eu sentia a energia pulsando em cada musculo peludo e não tive dúvida, saltei pra acabar com aquela cara feia do Murph.

Lógico que deu errado. Eu bati de cara na gaiola e cai pra trás.

Os sacanas ficaram surpresos por eu não virar uma sopa de hamster e me encaravam como se eu fosse uma aberração.

O problema é que eu comecei a notar que as refeições demoravam mais pra vir, mesmo os doces do John. Pior que todo mundo começou a falar como lesmas gigantes, beeemmmm ddiivaaggaarrrrr. Até uma criança podia entender o que eles falavam e agora eu também entendia.

Naquele momento eu comecei a ter umas ideias malucas. Eu era um prisioneiro ali, tinha que fugir mas eu sentia muita fome. Comecei a forçar a grade, um pouquinho só, só pra ver o que acontecia e ela caiu.

Eu sai da jaula e fui direto no armário da felicidade. Cara eu estava morrendo de fome! Comi de tudo, froot loops, chocolate, salgadinho, café. Cara, café era vida. Mais que paçoca, ele me deixava muito ligado. Eu conseguia ouvir o guarda roncando do outro lado do laboratório e passei a noite toda comendo.

É lógico que os cientistas ficariam putaços quando descobrissem, mas ninguém ia enfiar uma agulha no meu peito e fica por isso mesmo.

Tentei voltar para a minha jaula mas nem por uma barra de chocolate ao leite eu caberia ali. Eu estava enorme e muito mais forte.

Bem que o John poderia ter sido o primeiro a chegar mas a vida é um kinder ovo. E as vezes a surpresa é uma merda. Murph entrou no laboratório e encarou meu focinho peludo. Azar do idiota.

A coisa aconteceu em câmera lenta. Eu pulei e o sacana voou tão forte que os olhos dele saltaram da cara, a cabeça virou uma parada esmagada na parede e o guarda que ontem estava roncando, assistia tudo aquilo pela tv.

Ele apertou o botão vermelho e no instante seguinte uma porta de aço começou a descer lacrando todo o laboratório. Eu pensei em correr. Sabe, foi só um pensamento, mas quando eu percebi, já estava longe. Foi uma respirada e eu já estava nas ruas sujas e cheia de cheiros saborosos.

Um cachorro grande e preto me olhou como se eu fosse um bife saboroso. Eu olhei pra ele e sorri mostrando meus dentes, encarei e acho que só então o canino percebeu que eu tinha a altura dele. Foda-se os pastores alemães. Ele saiu correndo e eu fui procurar comida.

Quanto mais eu comia, mais forte me sentia. Mas tudo que é bom dura pouco. Uns soldados vestidos com super-armaduras e cheios de armas vieram atrás do meu corpinho. Pro azar o deles, eu corria desviando das balas acertando a cabeça dos idiotas com as minhas patas.

Eu era um mestre ninja tipo o Splinter, só que muito mais rápido.

Mas toda aquela ação me deixava cansado e com fome. Enquanto eu fugia meu estômago rugia.

Quando minha energia acabou, eu corri e mergulhei numa caçamba. Ela foi cercada, os caras tinham trazido robôs gigantes pra me pegar, sério eu era uma estrela de Tv.

Os soldados viraram a caçamba me derrubando no chão junto com entulhos e restos de comida podre demais até pra mim. Eles me encararam com os rifles nas mãos.

Soldado1: Identidade agora vagabundo!

Eu: O.. o que? (essa foi a primeira vez que eu ouvi a minha voz e juro, era uma voz muito merda.

Soldado1: Temos um meliante provavelmente bêbado, nú dentro da caçamba. O Espécime RSVX13 nos enganou novamente central.

Central: Pergunte ao bêbado se ele viu algo, do contrário abandone ele e voltem a  base.

Soldado1: Ei idiota, eu só vou perguntar uma vez e é bom responder rápido se não vou te bicudar tão forte na tua bunda que meu pé vai sair pela sua boca beleza? Você viu um rato gigante como um cachorro? 

Eu: Não.. não senhor.

Soldado1: Cade tuas roupas?

Eu: Que roupas?

Soldado2: O Zé esquece esse cara. Maluco tá tão noiado que tá chamando o Rovirso de Lobão.

Soldado1: Tá certo. Pelotão debandar, paramos a caçada por hoje.

Eu senti frio. Como os humanos aguentam viver sem pelos? Eu peguei um trapo e me cobri. Aí as pessoas pararam de gritar e apontar na minha direção.

Graças ao grande Cookie sagrado eu achei umas roupas e uma coisa pra cobrir as patinhas. Cara como eu odeio cacos de vidros. Mais do que odeio a Betty. Definitivamente pés humanos e cacos de vidro não combinam. 

Eu já estava quentinho, tirando todos os cacos com os dentes e meu estômago tinha parado de roncar. Acho que a fome tinha dado a volta sabe?

Ai eu descobri a merda que é a humanidade.

Dois idiotas avançando contra um outro idiota com cara de nerd. Eles estavam com canos de ferro na mão, o nerd nem ia saber o que aconteceu. Eu só assistindo a cena, quando percebi que o nerd era o John.

Os caras iam matar o John.

Eu corri mas tropecei pisando nas cordinhas que estavam cobrindo as minhas patinhas.

O idiota1 acertou o John, que caiu no chão. Eu cheguei a tempo de ver o sangue escorrendo e os caras puxando a mochila dele.

Dei um soco no queixo do idiota1 que nem pareceu sentir, ele sorriu e disse: Quer brincar de super-herói, é idiota? Em seguida ele desceu com o cano na minha cara.

Sério, quando eu disse que eu odiava agulhas era porque ninguém tinha batido na minha cara com um cano de ferro.

Aquilo doeu muito. O sangue escorria em um jato, manchando o beco e eu tive mais uma vez o estalo na cabeça.

No momento seguinte eu não sentia a fraqueza humana. Eu era eu mesmo de novo. Era hora de chutar algumas bundas.

Eu saltei acertando o idiota1 na cara. Aproveitei o impulso pra esfregar a cabeça dele na parede. Foi lindo ver os miolos e os tijolos se fundindo em uma única coisa.

O idiota2 não tinha nem conseguido se mexer. Eu sorri, ele piscou e me viu no chão embaixo dele. Acertei uma cabeçada no meio das pernas. Ele voou três metros de altura, caiu inconsciente e provavelmente não vai ter os próprios pequenos humaninhos.

A fome voltou novamente e eu senti o meu corpo esticar, voltei a forma humana pelada, fraca e feia. Coloquei as minhas roupas, peguei o John nas costas e fui pra casa dele.

Não demorou pra ele acordar, a pancada só tinha sido superficial (eu acho). Ele demorou pra acreditar que eu era o Snowball. Também era difícil pra mim acreditar que eu era o Snowball fofinho quando estava pelado e magrelo. Mas me deu comida e comida me deixa feliz.

Ele disse que o laboratório estava me caçando, que o composto ainda devia estar instável e poderia causar outras mutações. Ele ficou de estudar os efeitos e enquanto eu me comportasse eu poderia ficar.  Pensei no caso, assisti televisão e caras, que invento foda esse dos humanos.

Ah, eu vi uma galera com collants dizendo que eram super-heróis. Lutando contra vilões e fugindo das corporações. Vi que eles tentam fazer o bem. Algo em minha mente está perguntando se eles ganham pizza para isso. Eu acho que não.

Quando eu perguntei o John disse que eles não ganhavam comida e que muitos eram criminosos, que eu deveria ficar longe deles. Eu concordei.

Mas na noite passada a vizinha do 42 quase foi morta pelo ex-namorado.

Milagrosamente ela foi salva por algo que se movia muito rápido.

Ela não conseguiu ver o que era mas a coisa roubou uma barra de chocolates que o maluco tinha no bolso e eu percebi que a vida de herói pode ser divertida e doce. 

Agora eu sou um super-herói. O John fabricou uma identidade pra mim, me chamo Filipi Brownie, porque brownie é bom. Mas os vilões me conhecem como Snowball.

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