Senescência – Contos Malditos

Por Wal Lima

– Bom dia dona Priscila, dormiu bem essa noite? Está parecendo meio abatida. Mas não se preocupe, logo vai melhorar. Só vou abrir um pouco a janela para que veja a claridade lá fora. M

Saindo pelo corredor daquele lugar tranquilo Rafaela sorriu por estar ali mais uma vez. Garota exemplar como ela só, sempre fazia trabalho voluntário, arrecadava mantimentos para os necessitados. Trabalhava em eventos para entreter as crianças humildes.

Sem dúvida nenhuma era uma jovem e tanto.

Até poderia ter seguido outro caminho na vida. Após perder os pais em um acidente de carro, não foi fácil crescer em um orfanato regido por aquelas irmãs tão rígidas. Mas não, contrariando as estatísticas, ao fazer 18 anos estava empregada e conseguia se sustentar. Entrou para a escola de enfermagem e enfim tinha a profissão que tanto amava, e tinha muitos amigos e muitos admiradores inclusive também.

Morava atualmente em uma pensão somente para garotas, era simples, mas nunca teve luxo, então não se importava com os detalhes de tal local. De manhã ia para o trabalho todos os dias sempre alegre, mesmo tendo que acordar de madrugada para conseguir chegar a tempo.

No hospital não parava um segundo que fosse, sempre interessada em aprender mais e mais. Há quem dia que era uma enfermeira com habilidades que deixavam muitos médicos para trás. Mas Rafaela não se importava com essas comparações. Rafaela só se importava em aprender.

A noite em alguns dias na semana cursava uma Especialização, e nos finais de semana ia para um asilo já que não havia muitas coisas em sua vida para lhe distrair.

Aquele era um lugar calmo, e contrariando todas expectativas o número de idosos só aumentava. Uma vez que entravam naquelas acomodações pareciam não sair de tal lugar, amplo, arejado, cheio de arvores e tão distante do mundo real.

Lá achava Gabriel um velho excêntrico com todas suas histórias e planos mirabolantes. Considerava Guilherme um bom idoso, sempre tentando ser educado e amável. A princípio acreditou que Carlos poderia ter sido padre em algum momento de sua vida, mas ao conhecer ele melhor teve certeza que não. Que padre tomava whisky as 9h da manhã?

E as mulheres então? Tinha certeza que dona Lara saia escondida a noite pra visitar o dormitório dos homens, mas não falaria nada pra ninguém. Que ela aproveitasse a vida afinal. Glaucia era a mulher calma que tinha tempo para ouvir todos, e a Sabrina a senhora que mais parecia exigir atenção naquele local.

Naquele fim de semana iam chegar mais alguns idosos, ela os levaria para lá. Não entendeu como as famílias nunca ligavam para seus idosos, sempre esqueciam eles ou não se importavam com o que acontecia com eles.

Nessa leva chegaria Gustavo, Alexandre, Thiago, Andressa e a dona Ana. A princípio eles sempre se entristeciam, mas Rafaela fazia questão de tentar os entreter. Levava eles para passear, alimentava cada um. Organizava jogos com eles no salão. Ela fantástico cuidar de tantos idosos agradáveis.

Pena que nunca gostavam muito de conversa. Contrariando o que todos sempre diziam, esses idosos eram sempre muito calados. Mas ainda assim eram finais de semana agradáveis.

E foi então que Rafaela conheceu Otavio. Ele também trabalhava no hospital, e ao contrário dela não era tão solitário. Morava com os avós já em idade avançada e prezava pelos cuidados deles. Assim como ela não tinha tanto tempo de sobra e destinava seu tempo a ficar em casa e reler artigos científicos que achava interessante. Trabalhava no setor de oncologia e convivia com a morte dia sim e outro também.

Era extremamente organizado, tinha um vocabulário de dar inveja, uma postura maravilhosa, e que mãos agradáveis. Rafaela e Otavio se conheceram no restaurante do hospital, dividiram uma mesa por acaso e a partir daí começaram a dividir seus momentos livres também.

Iam ao cinema ver filmes variados, liam livros de autores alternativos, ouviam boa música sempre que podiam e a cada dia que passava se tornavam mais próximos. Ela começou a frequentar a casa em que ele morava com os avós, e ela cada vez mais cultivava afeto também por esse casal tão afetuoso.

Nunca achou que teria uma nova família em sua vida, seus pais era toda família de que se lembrava. E depois do acidente de carro que sofreram, seus dias nunca mais foram os mesmos. Perdeu o pai e a mãe naquela manhã de domingo ao voltar da igreja. Seu pai se distraiu sorrindo com as brincadeiras que ela fazia no banco de trás. Nem percebeu quando um senhor perdeu o controle do carro ao volante e veio a uma velocidade absurda em direção a eles. Aquele senhor sofreu um infarto enquanto dirigia e desmaiou. Como estava em uma descida o impacto no carro da família Myai foi intenso e somente a criança continuou com vida.

E mesmo assim a criança teve que passar por diversas cirurgias para a correção de tantas fraturas em um corpo tão pequeno e frágil. Como era alérgica a maioria dos medicamentos, quase que não se via livre da dor, teve que enfrentar como criança, algo que talvez nem uma pessoa adulta suportaria.

Fez várias cirurgias plásticas para ter o rosto mais próximo possível do normal. E depois de passar quase três anos naquele hospital se acostumou com aquelas acomodações, mas foi obrigada a partir para o orfanato no final.

O hospital que foi sua casa por alguns anos tão tristes e intensos, também foi seu porto seguro. Mas após sua partida o hospital também se partiu, foi vendido e deu origem a um asilo na sequência, um asilo com seus idosos inconsequentes e imprudentes. Mas aquele ainda era um lugar onde Rafaela se sentia reconfortada, então passou a ir lá sempre que podia.

Agora seria a hora de levar Otávio para o seu lugar secreto ou ainda era cedo demais?

Pensava nisso constantemente e se sentia amargurada todas as vezes. Se ele gostava tanto dela como ele dizia, ele ia entender por que se sentia tão bem ali. E ainda podia levar os avós para passear naquele lugar mágico também. Eles também poderiam morar ali para sempre. Igor e Tainara pareciam muito sós vivendo exclusivamente para aguardar o retorno do neto todas as noites.

Estava decidido. No aniversário de um ano de namoro já sabia onde seria a comemoração dos dois.

Acordou de manhã, caminhou até o prédio que era seu segundo lar, abriu todas as janelas, arrumou o salão principal para o evento que marcaria sua vida e reuniu todos seus idosos. Um por um os tornou apresentáveis e os levou para aquele lugar fabuloso.

Encontrou com Otavio como combinado e o direcionou para tal local. Ao ver aquilo ele ficou sem compreender a brincadeira, mas entrou na encenação. Gostavam tanto de filme de terror afinal, talvez fosse um fetiche novo para apimentar a relação de ambos.

O prédio do lado de fora parecia um lugar decrépito abandonado a muito tempo por todos, no pátio as arvores e o jardim estavam tomando conta de tudo aos redores. O lugar era como um casarão antigo, que posteriormente foi adaptado para servir de hospital e depois asilo e depois foi abandonado por completo. Mas aos olhos de Rafaela não, ele ainda parecia exatamente como se lembrava, de quando era criança e ali brincava. Na mente de Rafaela ele ainda era o mesmo.

Ela abriu a porta velha, antiga e enferrujada com cuidado. Mas antes pôs uma venda nos olhos de seu amor, não queria estragar a surpresa. O conduziu calmamente por entre os destroços que na visão dela eram enfeites, e por fim chegou no salão principal. La com um sorriso no rosto tirou a venda dos olhos de Otavio, mas a reação dele não foi exatamente a que ela esperava.

Era um misto de assombro com nojo e talvez um pouco de medo.

O que ele viu estava muito longe do que esperava. Ao longo do salão estavam distribuídas várias cadeiras com idosos em vários estágios de decomposição. Uns pareciam ter morrido a não mais que um dia, outros já aparentavam estar mortos há anos, mas uma coisa é certa, todos haviam morrido ali.

Otavio não aguentou e vomitou por nervosismo ao processar aquela cena.

– O que é isso tudo? Quem fez isso tudo Rafaela? Me conta, quem é você?

– Sou a mesma Rafaela que te ama. Você me apresentou sua família, decidi que já era hora de conhecer minha família também. Até pensei em trazer seus avós para vir para cá. Eles iam adorar ter companhia, disso eu tenho certeza.

E com os olhos marejados Otavio não sabia ao certo o que sentir. Não sabia processar o que aconteceu, ou não conseguia pensar em quem realmente Rafaela era.

– Você é louca! Você tem que responder por tudo isso! Você, você tem que ser presa!

– Não, você me entende. Você pensa como eu, eu sei que sim.

E ao tentar abraçar Otavio para acalmá-lo foi repelida no mesmo instante. Não entendeu nada. Como assim? Como podia ter entendido tudo errado. Era para ele somar a ela e ficar feliz, não era para ele se comportar assim. Não. O que ele ia fazer? Ele não poderia acabar com sua família.

E como que por reflexo pegou uma garrafa de vinho que utilizaria para o brinde de comemoração e bateu na cabeça de Otavio que caiu. Finalizou o serviço com o mesmo veneno que aplicava em todas as vítimas que levara para aquele local. Era um anestésico que impossibilitava a pessoa de se movimentar, mas que as fazia permanecer conscientes. Aos poucos a pessoa sucumbia por inanição ou desnutrição. Uns Rafaela mantinha por mais tempo, de outros ela se cansava logo no início. Mas o destino deles era sempre o mesmo, de novo e de novo.

Assim como um idoso havia tirado a vida de seus pais, agora era a hora de ela ter o prazer de retribuir esse ato tão solene. Idosos livres no mundo são perigosos para as outras pessoas. Eles não têm que viver por tanto tempo, e infelizmente Otavio teve que se juntar a eles em sua moradia. Mas para que ele não se sentisse só, fez questão de buscar seus avós que o amavam tanto.

E assim a vida de Rafaela continuou sozinha, a não ser pela companhia daqueles que não falavam, mas que sabiam ouvir pacientemente.

E novamente aquela garota doce e simpática voltou a alegrar a vida das pessoas ao seu redor. E essa garota continuou fazendo caridade por longos anos, mas nunca se casou, e nunca teve ninguém além de seus pacientes. A quem diga que ela tinha medo de se apaixonar, mas a verdade é mais que certa: o único medo que Rafaela tinha, era o de que a morte lhe renegasse antes da sua velhice chegar.

*Essa é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos, lugares ou situação da vida real, é mera coincidência.

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